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Pó, cinza e nada



Maria Laura conseguia entender porque um viciado ou alcoólatra lutavam tanto para fugir do vício: é mais fácil escapar da realidade quando algo te entorpece. Mas ela não tomava nada, e aí se sentia presa na realidade, e angústia no peito, só via o que realmente somos: pó, cinza e nada. Pó, cinza e nada! 

Florbela Espanca, a escritora portuguesa, já tinha escrito isso. Ela se matou! Virgínia Woolf se matou! Sylvia Plath se matou! Clarice fumou tanto que se consumiu. Bukowski fumou e bebeu tanto que se consumiu. Seria a sina de quem escreve, ou até quem raciocina, retiar-se da vida, ou entorpecer-se até o fim?

Maria Laura escrevia para desentorpecer. Lia muito antes de dormir para ter tenros sonhos, em que tinha uma vida livre, numa paisagem bonita, com uma companhia agradável. Essa noite mesmo, sonhou que estava na cidade grande, não sabe qual, mas tinha muitos tijolos nas construções. Não estava sozinha, tinha um rapaz alto com ela. Viu ele muito bem até. Era como se estivesse lá. Será que em outra dimensão realmente esteve?

Lembrou de um desenho que viu recentemente, do Homem-Aranha, e ele tinha várias versões, mas todos eram ele de certa forma, e não eram. Chamavam de multiverso! Será, que em outros multiversos, existe a Maria Laura astronauta? A Maria Laura atriz de cinema? A Maria Laura física quântica? A Maria Laura mãe de 5 filhos? Existiria por ali sua versão Mary, Marie, Mare ou Laurinda? Ela gostava de pensar que sim.

E sem saber se existia ou não tal realidade alternativa, ela escrevia, escrevia. Como é escrever sem ser publicada? Como é ser publicada e não lida? Maria Laura sabia, pois numa época de tudo digital, 2 livros encalhavam nas estantes virtuais da vida, e duas dúzias na sua própria.

Maria Laura queria mesmo era ser aquela personagem da Sharon Stone no filme "Instinto Selvagem", a Catherine Tramell: linda, bem-sucedida, morando numa casa distante de todo mundo com vista para o mar e sem precisar dar satisfação para ninguém (dispensando, é claro, os assassinatos e sadismos a parte). De vilania, já passava o que passou nas mãos de Alícia na infância e adolescência. Mas parando para refletir agora, que personagem Alícia é. Uma vilã dada de bandeja, vinda da vida real para a ficção. Realmente, a arte imita a vida.

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