Maria Laura conseguia entender porque um viciado ou alcoólatra lutavam tanto para fugir do vício: é mais fácil escapar da realidade quando algo te entorpece. Mas ela não tomava nada, e aí se sentia presa na realidade, e angústia no peito, só via o que realmente somos: pó, cinza e nada. Pó, cinza e nada! Florbela Espanca, a escritora portuguesa, já tinha escrito isso. Ela se matou! Virgínia Woolf se matou! Sylvia Plath se matou! Clarice fumou tanto que se consumiu. Bukowski fumou e bebeu tanto que se consumiu. Seria a sina de quem escreve, ou até quem raciocina, retiar-se da vida, ou entorpecer-se até o fim? Maria Laura escrevia para desentorpecer. Lia muito antes de dormir para ter tenros sonhos, em que tinha uma vida livre, numa paisagem bonita, com uma companhia agradável. Essa noite mesmo, sonhou que estava na cidade grande, não sabe qual, mas tinha muitos tijolos nas construções. Não estava sozinha, tinha um rapaz alto com ela. Viu ele muito bem até. Era como se estivesse lá. ...