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Mostrando postagens de junho, 2020

Baila Comigo

A Laura amava dançar! O amor era antigo, a Alícia botou a Laura na dança com apenas 4 anos porque a menina era demasiado desembaraçada e ativa, e a Alícia trabalhava muito (e quando não estava no trabalho, estava no salão fazendo unha, cabelo, sombrancelha e depilação). A escola de dança era o lugar em que Laura ficava  quando não estava na Escolinha. Fazia de tudo, ballet clássico, jazz, sapateado e contemporâneo. Ou seja, 5 dias na semana, 2x vezes por dia, estava a Laura de sapatilhas e malha. A Graça ia levar e buscar às vezes, nas outras era a Itália, uma senhora que fazia as honras de lavadeira e faxineira. Mas a Itália gostava da Laura, porque a Laura era muito falante e contava muita coisa diferente que a Itália nunca ouvira falar. Itália tinha 6 filhos e 12 netos (numa casa de 3 cômodos), estava acostumada com casa cheia, mais uma pimpolha não fazia diferença de cuidar. Laura gostava de ir para o lugar simples e aconchegante porque a Itália fazia pastel de vento e...

Férias na Praia

Laura estava feliz! Iriam para a Praia do Peró mais um ano. Ahhhhh, mal podia esperar, a menina! Sol, mar, a prancha de bodyboard rosa e branca da Elton, a pasta d´água no rosto, o biquini em vários tons de neon (característicos dos anos 80), as amiguinhas de diferentes cidades e estados, o sorvete de cacau do trailer da pracinha. Vocês sabiam que cacau é branco? Que a poupa vira sorvete e suco, e a semente que vira o maravilhoso chocolate? Pois a Laura descobriu tomando sorvete. A menina-selvagem-amante-da-natureza finalmente um mês inteiro de pés no chão... as ruas de pavimento de terra do bairro afastado de Cabo Frio, que quando os carros passavam, levantavam poeira no caminho para a praia. O 'bugue' da tia Léia sempre recheado de crianças (como será que cabe!), as caminhadas do Peró às Conchas (catando conchas), as brincadeiras nas ruas de pique e esconde-esconde. Pêra-uva-maçã-saladamista escondido dos adultos, e o menino Rodrigo que mais parecia uma miniatura do He-...

Parente-Serpente

Os olhos verdes de Alícia, apesar de bonitos, não escondiam a malícia da serpente que era. Pútreda, ardilosa e má. Na voz doce, disfarçava para alguns desavisados as intenções demasiado baixas e egóicas da ex-miss que envelheceu e se condoeu de ter filhas tão distintas em aparência. Nunca disfarçou que amou a mais velha, que era linda indiscutívelmente por fora, porém oca e desinteressante por dentro. E que também indisfarçadamente desprezava a mais nova, a com cara de índio aymoré. Como o preconceito é nojento, e real, e podre, e incrustrado até no seio familiar. Quanta hipocrisia dos que o negam, e esses são muitos! Ironia das ironias, era exatamente a 'índia' que corria atrás de Alícia, e a cuidava, e a ajudava, e a venerava inocentemente, a que sempre esteve ao seu lado. Mas até o sempre tem limite! Como  os contos de Grimm, Alícia era o esteriópo da madrasta má: linda e cruel. Só que era mãe legítima. Mãe ? Seria bendito o fruto de um ventre macabro ?  Como algun...

O pai que não amou

O pai que não amou, em seu abraço que cala, em seu silêncio que corta. Na ausência-presença doída de quem esteva mas nunca esteve. Das exigências descomedidas de quem teve e nunca valorou o teve. Do enxofre da voz, da bile dos sentimentos. Da escassez de amor real e exceços de falsos predicados. Do 'shiiiiiiiii' silêncio, estou vendo o telejornal. Do nojo ao abraço da menina brincalhona, que com o gato num braço, e poodle no outro, correu para um afago e quase parou no hospital. 'A garota imunda, filha da natureza, meu jaleco de linho branco fino  e caro irar sujar.' 'Garota imunda, filha da natureza, pé no chão, shorts sem camiseta, assim não te quero. Quero a outra de laço e fita, quero a outra de toule e cetim.' E a mão que batia, e a voz que perjurava, dos insultos, do medo, da criança abalada. Dor, silêncio, ansiedade. Cresce Laura sufocada, sem voz, sem cor, sem corpo, só dor. Magra, cianótica, anoréxica e bulímica. Cresce Laura sem amor, a paul...