Pular para o conteúdo principal

De Algodão Doce e Pipoca






“A vida deveria ser assim: ter cheiro de pipoca e sabor de algodão doce”, disse a mulher ao lembrar de sua infância passando em frente a um circo. Era raro ver um circo nos dias de hoje. Desses mambembes de estrada, não um modernoso como o de Soleil

Seu nome era Laura Maria e tinha 43 anos. Nada definido na vida, que tal qual roda-gigante, sempre girava e girava e não saía do lugar não importava seu esforço. “Ainda fujo com o circo”, pensou. Nunca é tarde!

Era moça da roça, mas tinha instrução. Era professora primária e levava muito jeito com a garotada. Mesmo assim, não tinha uma vida menos descomplicada. País em crise, grana pouca, necessidade muita. A escola que trabalhava estava em beiras de fechar. Seria a hora de fugir com o famigerado circo?

 Falava idiomas, fazia planos, estudava até acrobacias, "vai que", pensava ela. E olhava para o circo, ali sendo montado, a poucos metros de casa. De onde teclo, ouço seus suspiros.

Todo dia que ia trabalhar, o fazia a pé. Enquanto andava os 6 km até o centro da cidade por um matagal empoeirado nas beiras da via expessa, ia já pensando nos roteiros. Arquitetava sua fuga. Pensava no que lhe dava prazer, no que gostava de fazer além de dar aulas. Ela já tinha viajado, sabia se virar muito bem. O que a prendia?

Laura Maria era a caçula, nascida temporã. A irmã mais velha era a linda, parecia uma bonequinha russa. E todo mundo fazia questão de lembrar isso a ela o tempo (principalmente a mãe). Maria da Graça (que conveniente) era uma gracinha, e a Laura... bem, a Laura era muito simpática. Nasceu aí a menina feia! Algumas mães não fazem questão nenhuma de esconder a predileção. Tato para quê!

Pois é, desde tenros tempos a vida nunca teve o gosto de fantasia que Laura sempre desejou. Mas ela iria sim, atrás de seu happy end. Afinal, esse é apenas o capítulo um, e essa quem vos escreve, muito pode testemunhar.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Grande Invenção

  Vamos chamar de a grande invenção, porque a grande arte já é nome de um livro (e de um filme inclusive), e chamar de o grande fingimento seria muito rude com a minha pessoa.  Digamos que todos os dias, em especial os de semana, eu faço de conta que está tudo bem. E as pessoas acreditam! Impressionante tudo que se vende na internet. Se a foto está bacana, logo, você está feliz. Fato é que tenho vivido meia-vida há meses. Como é isso? Bem, a vida plena que eu tinha, de emprego, viagens, amigos, essa está ainda lá em 2020 e ainda não consegui recuperar, muito por precaução desse vírus  cretino, e mais precaução ainda das pessoas que fingem que ele não está aí. Aí eu crio uma vida baseada no que posso, e não no que queria viver. Até porque para eu viver o que eu quero no momento, tem dependido de terceiros. Não vou abrir aqui o que é, quem sabe sabe, quem não sabe, saberá depois. Mas segunda-feira, ah, aquele gato dos quadrinhos tinha razão, o Garfield, em detestar as segun...

Pó, cinza e nada

Maria Laura conseguia entender porque um viciado ou alcoólatra lutavam tanto para fugir do vício: é mais fácil escapar da realidade quando algo te entorpece. Mas ela não tomava nada, e aí se sentia presa na realidade, e angústia no peito, só via o que realmente somos: pó, cinza e nada. Pó, cinza e nada!  Florbela Espanca, a escritora portuguesa, já tinha escrito isso. Ela se matou! Virgínia Woolf se matou! Sylvia Plath se matou! Clarice fumou tanto que se consumiu. Bukowski fumou e bebeu tanto que se consumiu. Seria a sina de quem escreve, ou até quem raciocina, retiar-se da vida, ou entorpecer-se até o fim? Maria Laura escrevia para desentorpecer. Lia muito antes de dormir para ter tenros sonhos, em que tinha uma vida livre, numa paisagem bonita, com uma companhia agradável. Essa noite mesmo, sonhou que estava na cidade grande, não sabe qual, mas tinha muitos tijolos nas construções. Não estava sozinha, tinha um rapaz alto com ela. Viu ele muito bem até. Era como se estivesse lá. ...

Dia da Lua

  Eu nasci numa Segunda-Feira de lua cheia. Conheço poucas pessoas que nasceram numa Segunda, além de mim. Para ser sincera, acho que ninguém. Em outros idiomas, a Segunda-Feira é o dia da lua, em inglês Monday vem de de "moon-day", e em Espanhol, Lunes, faz referência a "la luna", assim como em Francês também, Lundi como "la lune". Ou até mesmo em Italiano, Lunedi, de luna. Parece que só na minha língua é "diferentona". Idiomas a parte, sempre me identifiquei com esse satélite distante e brilhoso. Se a lua tem fases, como ela eu também, e da mesma forma como ela muda, minha vida muda de uma hora para outra, muitas vezes sem eu mesma desejar. Por ser o primeiro dia útil de trabalho na maioria dos países, algumas pessoas acham a Segunda difícil. O personagem de Jim Davis, o gato Garfield tem uma tirada clássica: "I hate Mondays! (Eu odeio Segunda).  Eu não sou diferente da maioria. Não detesto, não evito, nem tampouco por preguiça, mas energé...