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O pai que não amou





O pai que não amou, em seu abraço que cala, em seu silêncio que corta. Na ausência-presença doída de quem esteva mas nunca esteve. Das exigências descomedidas de quem teve e nunca valorou o teve. Do enxofre da voz, da bile dos sentimentos. Da escassez de amor real e exceços de falsos predicados. Do 'shiiiiiiiii' silêncio, estou vendo o telejornal. Do nojo ao abraço da menina brincalhona, que com o gato num braço, e poodle no outro, correu para um afago e quase parou no hospital. 'A garota imunda, filha da natureza, meu jaleco de linho branco fino  e caro irar sujar.'

'Garota imunda, filha da natureza, pé no chão, shorts sem camiseta, assim não te quero. Quero a outra de laço e fita, quero a outra de toule e cetim.'

E a mão que batia, e a voz que perjurava, dos insultos, do medo, da criança abalada. Dor, silêncio, ansiedade. Cresce Laura sufocada, sem voz, sem cor, sem corpo, só dor. Magra, cianótica, anoréxica e bulímica. Cresce Laura sem amor, a pauladas da vida... mas Laura sabia amar.

Cresce Laura com a certeza de ser o contrário do que a ensinaram, de não repetir o que lhe fizeram, de se bastar e ser bastante para espalhar o que lhe era obstante. Filha da natureza, amante da terra, da lua, do sol, dos animais. Compassiva até com  o tolo que a desprezava. O tolo que chamava, sem mérito, de pai.

Mas mesmo velha e madura, descobre Laura que o finado a ela ainda podia injúria, e dor e prejuízo. E rezou Laura, depois do comprimido, que tudo fosse passageiro, e todo sofrimento de outrora em líquida e rápidas nuvens findasse e num sol claro e duradouro viesse sua paz.

Rezou Laura, e enterrou de vez o finado biltre e descortez. No coração dela somente cores, amores, natureza e compaixao, e que todo mal parasse de assombrá-la da escuridão. Até porque na escuridão também há luz, então rezou Laura que a luz reinasse e o finado flor virasse e finalmente descansasse.

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