Os olhos verdes de Alícia, apesar de bonitos, não escondiam a malícia da serpente que era. Pútreda, ardilosa e má. Na voz doce, disfarçava para alguns desavisados as intenções demasiado baixas e egóicas da ex-miss que envelheceu e se condoeu de ter filhas tão distintas em aparência.
Nunca disfarçou que amou a mais velha, que era linda indiscutívelmente por fora, porém oca e desinteressante por dentro. E que também indisfarçadamente desprezava a mais nova, a com cara de índio aymoré. Como o preconceito é nojento, e real, e podre, e incrustrado até no seio familiar. Quanta hipocrisia dos que o negam, e esses são muitos!
Ironia das ironias, era exatamente a 'índia' que corria atrás de Alícia, e a cuidava, e a ajudava, e a venerava inocentemente, a que sempre esteve ao seu lado. Mas até o sempre tem limite!
Como os contos de Grimm, Alícia era o esteriópo da madrasta má: linda e cruel. Só que era mãe legítima. Mãe? Seria bendito o fruto de um ventre macabro? Como alguns animais, se pudesse, ela comeria a cria só para se nutrir, tal qual Medéia assassinou os filhos em vingança ao ex-marido, Alícia assassinava qualquer perpectiva de amor que as filhas poderiam nutrir num futuro, ou velhice. Era um parasita a sugar qualquer vitalidade que ficasse ao seu lado.
A mais velha, a bela, a Graça, tão logo pode, partiu. A pródiga-ingrata! Não a julgo. A Laura, ficou até onde pode, depois juntou as malas e o amor-prórpio, e se não foi com o circo, foi sozinha mesmo, porque a vida já não é fácil, para quê postergar a felicidade.
Há um ditado que diz 'parente, serpente', alguns acham exagerado e maldoso. A Laura sabe bem que não é!

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