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Os Recomeços com Recomeços

  Uma vez eu li que existe um provérbio Chinês que parece bem bonito e positivo mas carrega uma maldição: "Que você tenha uma vida interessante!" Uma pena que tamanha diversidade abençoada possa estar disfarçada de sina. Fato é que desde que me entendo por gente, nunca tive a paz de uma vida tranquila e estabilizada. Sempre - e eu digo sempre - foi um furacão de acontecimentos, uma tsunami de informações. E olha que essa que vos escreve é da época que não tinha internet e a pesquisa era feita em revistas, jornais, enciclopédias e bibliotecas. Que saber? Ótimos tempos! Cada vez tenho mais certeza que muita opção - no caso atual, muita informação - é opção  nenhuma. Voltando as voltas que minha vida dá, está relacionada a tudo: mudança de casa, cidade, país, emprego, amigos. Nunca posso me acomodar a ponto de esquentar um lugar que lá vou eu de novo! Até que nesse específico momento da minha vida estou conseguindo crescer no meu emprego (mesmo!), que apesar de não ser algo muit...

Dia da Lua

  Eu nasci numa Segunda-Feira de lua cheia. Conheço poucas pessoas que nasceram numa Segunda, além de mim. Para ser sincera, acho que ninguém. Em outros idiomas, a Segunda-Feira é o dia da lua, em inglês Monday vem de de "moon-day", e em Espanhol, Lunes, faz referência a "la luna", assim como em Francês também, Lundi como "la lune". Ou até mesmo em Italiano, Lunedi, de luna. Parece que só na minha língua é "diferentona". Idiomas a parte, sempre me identifiquei com esse satélite distante e brilhoso. Se a lua tem fases, como ela eu também, e da mesma forma como ela muda, minha vida muda de uma hora para outra, muitas vezes sem eu mesma desejar. Por ser o primeiro dia útil de trabalho na maioria dos países, algumas pessoas acham a Segunda difícil. O personagem de Jim Davis, o gato Garfield tem uma tirada clássica: "I hate Mondays! (Eu odeio Segunda).  Eu não sou diferente da maioria. Não detesto, não evito, nem tampouco por preguiça, mas energé...

A Grande Invenção

  Vamos chamar de a grande invenção, porque a grande arte já é nome de um livro (e de um filme inclusive), e chamar de o grande fingimento seria muito rude com a minha pessoa.  Digamos que todos os dias, em especial os de semana, eu faço de conta que está tudo bem. E as pessoas acreditam! Impressionante tudo que se vende na internet. Se a foto está bacana, logo, você está feliz. Fato é que tenho vivido meia-vida há meses. Como é isso? Bem, a vida plena que eu tinha, de emprego, viagens, amigos, essa está ainda lá em 2020 e ainda não consegui recuperar, muito por precaução desse vírus  cretino, e mais precaução ainda das pessoas que fingem que ele não está aí. Aí eu crio uma vida baseada no que posso, e não no que queria viver. Até porque para eu viver o que eu quero no momento, tem dependido de terceiros. Não vou abrir aqui o que é, quem sabe sabe, quem não sabe, saberá depois. Mas segunda-feira, ah, aquele gato dos quadrinhos tinha razão, o Garfield, em detestar as segun...

Pó, cinza e nada

Maria Laura conseguia entender porque um viciado ou alcoólatra lutavam tanto para fugir do vício: é mais fácil escapar da realidade quando algo te entorpece. Mas ela não tomava nada, e aí se sentia presa na realidade, e angústia no peito, só via o que realmente somos: pó, cinza e nada. Pó, cinza e nada!  Florbela Espanca, a escritora portuguesa, já tinha escrito isso. Ela se matou! Virgínia Woolf se matou! Sylvia Plath se matou! Clarice fumou tanto que se consumiu. Bukowski fumou e bebeu tanto que se consumiu. Seria a sina de quem escreve, ou até quem raciocina, retiar-se da vida, ou entorpecer-se até o fim? Maria Laura escrevia para desentorpecer. Lia muito antes de dormir para ter tenros sonhos, em que tinha uma vida livre, numa paisagem bonita, com uma companhia agradável. Essa noite mesmo, sonhou que estava na cidade grande, não sabe qual, mas tinha muitos tijolos nas construções. Não estava sozinha, tinha um rapaz alto com ela. Viu ele muito bem até. Era como se estivesse lá. ...

As pequenas coisas

  São as pequenas coisas! As pequenas coisas, que nos botam para cima, nos animas, nos dão sabor a vida. Também as que nos matam, nos botam para baixo, nos aniquilam. As pequenas coisas, as que as pessoas acham que não têm importância, ou não dão importância. As pequenas coisas, que viram gotinhas, gotinhas que um dia transbordam um oceano de coisas bem maiores mas também mais suportáveis e perceptíveis que as pequenas coisas. Posso nadar num oceano de grandes trivialidades sem me afogar, mas as pequenas coisas, essas matam como câncer, silenciosa, lenta e cruel.

Gritando por dentro

 A impressão que Maria Laura sentia era que estava sempre gritando por dentro, mas ninguém a ouvia. Anos assim, anos assim. Ainda é assim, ela precisa de ajuda, mas ninguém a ajuda. O desespero era tanto que ela cogitava suicídio, mas isso não a tiraria da dor, porque ela iria voltar com o mesmo fardo em outra encarnação. Ela tinha que partir, ir daquele lugar, não importava para onde, apenas ir, apenas ir, apenas a estrada, apenas a estrada e ela. Que solidão não ter com quem dividir, que solidão! Que solidão ter que guardar aquilo, porque muitos já espichavam dedos imundos e críticos, imundos e críticos ao que não sabiam. Gaslighting ... "não aconteceu, está na sua cabeça", "não foi bem assim, você que se lembra assim"... mas ela lembrava, ela tinha boa memória. Desenvolveu ranço pelos psicólogos, a maioria só quer faturar, na hora da crise do paciente, pedem para esperar. Uma pessoa com a faca no pulso vai esperar? Uma pessoa com 30 comprimidos na goela vai esper...

Não há cura onde houve a dor

Maria Laura sempre ouviu o mesmo de Alícia. Que ela era insuficiente, que ninguém nunca iria querê-la, que ela era horrível, que era uma sifilítica (acredite, uma criança de 8 anos) quando ela tinha crises enormes de asma, todas de origem emocional. A bronquite começou com 4 anos, depois de começar a presenciar seus pais se deglaiearem fisicamente, e muito violentamente quase todos os dias. A Graça, como era mais velha, fugiu adolescente para a casa do namoradinho na época e nunca ais voltou. Nunca, nunca mesmo. Mas a Maria Laura não podia ir muito longe, com 4, 5 anos. Ela até tentou, arrumou a bolsinha do ballet e foi embora um dia, para 5 minutos depois ser encontrada pelo pai de carro. Ele perguntou "onde você vai"? Ela disse na propriedade de sua certeza infantil "para uma casa mais tranquila". Óbvio que ela não foi para esse lar. O pai foi embora depois da separação. Ele quis levar a Maria Laura, e acredite, teria sido melhor para a menina, ele tinha melhores ...